Segunda-feira, Outubro 23, 2006
Promoção de Aniversário
Sou filha caçula. Vocês já devem presumir o que isso significa.
Fui mimada, tive sempre tudo que quis, nunca apanhei e recebi tudo o que todo filho caçula tem direito. Havia ainda alguns agravantes.
Minha mãe teve um processo de rejeição por meus irmãos o que a levava a desdenhar muito mais do que deveria deles e me elevar muito mais do que eu merecia, o que gerava uma visão injusta das pessoas, de que eu era a mais bonita, a mais esperta, a mais inteligente e a mais mais da família.
A afirmação de que eu era inteligente sempre foi contradita por atitudes diárias minhas, inclusive alguns casos podem ser conferidos e comprovados através deste blog, mas minha mãe sempre fazia vista grossa a eles.
Mas houve um dia que eu realmente superei todas as minhas expectativas de provar o contrário.
Na época eu era estagiária em uma empresa familiar e tinha como chefe uma baixinha insuportável que tinha como esporte favorito me fazer chorar diariamente. A felicidade dela atingia o êxtase assim que ela me via em prantos e soluços.
Certo dia nós tivemos uma discussão fenomenal antes do horário do almoço e eu pela primeira vez decidi que naquele dia eu não iria chorar.
Saí da empresa e fui caminhando e pensando, com a intenção de caminhar até que desse a metade do horário do meu almoço e nesse momento eu voltaria seja de onde for que houvesse chegado.
Nessa caminhada fui abordada por um homem alto, camisa social de mangas curtas, cabelos bem cortados que veio em minha direção sorridente e se apresentando como funcionário da rádio não sei o que.
Antes de continuar a história, gostaria de informá-los que nesse momento eu estava mais lesada do que de costume, o que ameniza, apesar de não justificar em nada, as cenas a seguir.
O tal funcionário perguntou o meu nome e disse que estava ali com o seu amigo e companheiro de trabalho, um senhor baixinho e meio grisalho, pois naquele dia estavam com uma promoção na rádio, pelo aniversário de não sei quantos anos do programa não sei o que.
Eles me fariam uma pergunta e se eu respondesse corretamente eu ganharia uma camiseta da rádio e o meu nome seguiria para um sorteio de R$10.000,00 que se realizaria as 18:00 horas do mesmo dia na dita rádio.
Eu, sem o menor animo, falei pra ele que tudo bem e ele fez a pergunta:
Quem vendeu mais cd’s este ano o Cicrano ou o Beltrano?
Ainda com a mesma cara de desanimada e sem nem o menor esforço em acertar respondi: o Beltrano.
Para minha surpresa, eles aplaudiram, gritaram eeeeeeeeeeeeee, fizeram cara de feliz, me abraçaram e disseram que eu tinha acertado e que o meu nome estaria participando do sorteio. Mas para participar mesmo, eu precisava colocar dentro de um envelope, envelope este que permaneceria comigo até à hora do sorteio, o meu cartão da minha conta com a minha senha anotada.
Achei esquisito.
O problema é justamente esse: Eu só achei esquisito.
E pensei comigo: Que babacas! Em que tipo de sorteio eu mesmo permaneço com os meus dados? Como que eles vão sortear?
De qualquer forma eu não vou ganhar mesmo, então não tem problema... Vou colocar o meu cartão antigo que já está bloqueado mesmo. Se o envelope vai ficar comigo mesmo, não vai ter problema nenhum.
Pode parecer muito assim escrevendo, mas esses pensamentos não duraram mais do que um segundo.
Olhei para o envelope que estava na minha mão, rabisquei a senha no papel dentro dele (acreditem, eu fiz isso), coloquei o cartão antigo dentro e disse que precisava ir indo, pois já findava meu horário de almoço.
O senhorzinho me recomendou que eu só abrisse o envelope após as 18:00 horas.
Não questionei e segui andando para o meu trabalho, ainda lesada e ainda sem racionar nada.
Quando eu estava quase chegando ao trabalho aquele envelope começou a me incomodar, pois minha mão suava e para me livrar, eu abri o tal envelope. Afinal, como que o homenzinho ia saber que eu abri?
Assim que eu abri o envelope o meu coração:
Gelou.
Parou.
Queimou.
E voltou a bater.
Senti o sangue queimando na minha cara e tive uma taquicardia.
Ao invés do meu cartão, tinha um outro cartão com um nome raspado.
Aí eu acordei.
Me senti com vergonha do mundo, da minha existência, tive vontade de esconder a minha cara de mim mesma, sentia ondas de ódio próprio tomando conta de mim e não conseguia ver nada mais do que minhas duas orelhas de jegues que apareceram em mim virtualmente.
Era óbvio, era claro, que eram golpistas.
Tudo estava ali muito claramente. Dois caras em pleno meio dia, nenhum microfone, nenhum veículo com adesivo de rádio, nenhum crachá e o pior, o pior de tudo.
Eu havia questionado dentro de mim, para que serviria o meu cartão com uma senha dentro de um envelope.
Fiquei vendo e repetindo a cena na minha cabeça e não consegui identificar em qual momento eles haviam trocado o envelope.
Me sentia mais idiota ainda, quando lembrava deles comemorando porque eu tinha acertado a resposta. E a camiseta? Eu não ganharia a tal camiseta? Kct que ódio! Que ódio de mim mesma. Que ódio daqueles caras.
Eles desafiaram a minha inteligência. E venceram!
Muito fácil por sinal...
Foi nesse dia, nesse momento, que eu tive dó da minha mãe.
Coitada! Acreditar que eu era a mais inteligente da minha casa.
Da família?
Coitada da minha mãe...
Mas ah, aquilo não ia ficar barato. Aqueles caras iam se ver comigo. Eu lembrava deles, do rosto, da roupa e eu estava a uns cinco minutos da delegacia.
Fazia apenas uns 10 minutos que eu tinha saído do local.
Fui andando raivosamente em direção a delegacia.
Cheguei à portaria ainda bufando, tinha um policial parado na frente dela.
Esbaforida eu disse:
Boa tarde!
O policial se voltou para mim. Ele era bonito, me olhou com um olhar sereno e retribuiu o boa tarde.
Aquele olhar sereno, naquele rostinho bonito...Eu acordei pela segunda vez.
Eu não teria coragem de contar aquela história absurda. Seria muita humilhação pra mim. Eu já estava vendo aquele policial bonitinho rachando o bico da minha cara.
Eu já tinha consciência que eu era uma burra, uma tapada, uma jumenta, uma anta nordestina e todos os outros adjetivos imagináveis e abaixo deles. Mas não precisava admitir isso pro mundo.
Ainda relutei contra o meu orgulho pensando: Eu evitarei que isso aconteça a outros jumentos como eu se eles forem presos... Mas ainda assim, o meu cérebro mesmo me respondeu: Não querida, não se preocupe - não existem jumentos como você!
O policial ainda esperava alguma frase minha quando eu olhei pra ele e perguntei:
Onde tem um ponto de ônibus próximo?
Ele sorriu e me apontou um a uns quinhentos metros.
Eu fui andando até o ponto, peguei o ônibus e fui embora para minha casa.
Depois de uma briga com a chefe, ser vitima do golpe do conto da carochinha era demais para um dia só, não conseguiria trabalhar mais naquele dia.
Fui embora desolada.
Mas no caminho algo me consolou.
Ainda que sem querer, eu me vinguei deles. O cartão que eu tinha colocado para eles era um cartão antigo e bloqueado, que eu nem sabia por que eu ainda não tinha jogado fora.
Logo se eles foram sacar, deram com os burros n’água.
Não me ajudava em nada, mas pelo menos, eles também se deram mal.
Enterrei essa história da minha vida. Nunca mais preenchi papéis para sorteio nem de um milhão. Nunca contei sobre esse dia a ninguém de tanta vergonha de mim mesmo.
Exceto para minha mãe.
Essa foi a única história que fez minha mãe parar definitivamente de ofender os meus irmãos e mandá-los ser inteligente como eu.
Fui mimada, tive sempre tudo que quis, nunca apanhei e recebi tudo o que todo filho caçula tem direito. Havia ainda alguns agravantes.
Minha mãe teve um processo de rejeição por meus irmãos o que a levava a desdenhar muito mais do que deveria deles e me elevar muito mais do que eu merecia, o que gerava uma visão injusta das pessoas, de que eu era a mais bonita, a mais esperta, a mais inteligente e a mais mais da família.
A afirmação de que eu era inteligente sempre foi contradita por atitudes diárias minhas, inclusive alguns casos podem ser conferidos e comprovados através deste blog, mas minha mãe sempre fazia vista grossa a eles.
Mas houve um dia que eu realmente superei todas as minhas expectativas de provar o contrário.
Na época eu era estagiária em uma empresa familiar e tinha como chefe uma baixinha insuportável que tinha como esporte favorito me fazer chorar diariamente. A felicidade dela atingia o êxtase assim que ela me via em prantos e soluços.
Certo dia nós tivemos uma discussão fenomenal antes do horário do almoço e eu pela primeira vez decidi que naquele dia eu não iria chorar.
Saí da empresa e fui caminhando e pensando, com a intenção de caminhar até que desse a metade do horário do meu almoço e nesse momento eu voltaria seja de onde for que houvesse chegado.
Nessa caminhada fui abordada por um homem alto, camisa social de mangas curtas, cabelos bem cortados que veio em minha direção sorridente e se apresentando como funcionário da rádio não sei o que.
Antes de continuar a história, gostaria de informá-los que nesse momento eu estava mais lesada do que de costume, o que ameniza, apesar de não justificar em nada, as cenas a seguir.
O tal funcionário perguntou o meu nome e disse que estava ali com o seu amigo e companheiro de trabalho, um senhor baixinho e meio grisalho, pois naquele dia estavam com uma promoção na rádio, pelo aniversário de não sei quantos anos do programa não sei o que.
Eles me fariam uma pergunta e se eu respondesse corretamente eu ganharia uma camiseta da rádio e o meu nome seguiria para um sorteio de R$10.000,00 que se realizaria as 18:00 horas do mesmo dia na dita rádio.
Eu, sem o menor animo, falei pra ele que tudo bem e ele fez a pergunta:
Quem vendeu mais cd’s este ano o Cicrano ou o Beltrano?
Ainda com a mesma cara de desanimada e sem nem o menor esforço em acertar respondi: o Beltrano.
Para minha surpresa, eles aplaudiram, gritaram eeeeeeeeeeeeee, fizeram cara de feliz, me abraçaram e disseram que eu tinha acertado e que o meu nome estaria participando do sorteio. Mas para participar mesmo, eu precisava colocar dentro de um envelope, envelope este que permaneceria comigo até à hora do sorteio, o meu cartão da minha conta com a minha senha anotada.
Achei esquisito.
O problema é justamente esse: Eu só achei esquisito.
E pensei comigo: Que babacas! Em que tipo de sorteio eu mesmo permaneço com os meus dados? Como que eles vão sortear?
De qualquer forma eu não vou ganhar mesmo, então não tem problema... Vou colocar o meu cartão antigo que já está bloqueado mesmo. Se o envelope vai ficar comigo mesmo, não vai ter problema nenhum.
Pode parecer muito assim escrevendo, mas esses pensamentos não duraram mais do que um segundo.
Olhei para o envelope que estava na minha mão, rabisquei a senha no papel dentro dele (acreditem, eu fiz isso), coloquei o cartão antigo dentro e disse que precisava ir indo, pois já findava meu horário de almoço.
O senhorzinho me recomendou que eu só abrisse o envelope após as 18:00 horas.
Não questionei e segui andando para o meu trabalho, ainda lesada e ainda sem racionar nada.
Quando eu estava quase chegando ao trabalho aquele envelope começou a me incomodar, pois minha mão suava e para me livrar, eu abri o tal envelope. Afinal, como que o homenzinho ia saber que eu abri?
Assim que eu abri o envelope o meu coração:
Gelou.
Parou.
Queimou.
E voltou a bater.
Senti o sangue queimando na minha cara e tive uma taquicardia.
Ao invés do meu cartão, tinha um outro cartão com um nome raspado.
Aí eu acordei.
Me senti com vergonha do mundo, da minha existência, tive vontade de esconder a minha cara de mim mesma, sentia ondas de ódio próprio tomando conta de mim e não conseguia ver nada mais do que minhas duas orelhas de jegues que apareceram em mim virtualmente.
Era óbvio, era claro, que eram golpistas.
Tudo estava ali muito claramente. Dois caras em pleno meio dia, nenhum microfone, nenhum veículo com adesivo de rádio, nenhum crachá e o pior, o pior de tudo.
Eu havia questionado dentro de mim, para que serviria o meu cartão com uma senha dentro de um envelope.
Fiquei vendo e repetindo a cena na minha cabeça e não consegui identificar em qual momento eles haviam trocado o envelope.
Me sentia mais idiota ainda, quando lembrava deles comemorando porque eu tinha acertado a resposta. E a camiseta? Eu não ganharia a tal camiseta? Kct que ódio! Que ódio de mim mesma. Que ódio daqueles caras.
Eles desafiaram a minha inteligência. E venceram!
Muito fácil por sinal...
Foi nesse dia, nesse momento, que eu tive dó da minha mãe.
Coitada! Acreditar que eu era a mais inteligente da minha casa.
Da família?
Coitada da minha mãe...
Mas ah, aquilo não ia ficar barato. Aqueles caras iam se ver comigo. Eu lembrava deles, do rosto, da roupa e eu estava a uns cinco minutos da delegacia.
Fazia apenas uns 10 minutos que eu tinha saído do local.
Fui andando raivosamente em direção a delegacia.
Cheguei à portaria ainda bufando, tinha um policial parado na frente dela.
Esbaforida eu disse:
Boa tarde!
O policial se voltou para mim. Ele era bonito, me olhou com um olhar sereno e retribuiu o boa tarde.
Aquele olhar sereno, naquele rostinho bonito...Eu acordei pela segunda vez.
Eu não teria coragem de contar aquela história absurda. Seria muita humilhação pra mim. Eu já estava vendo aquele policial bonitinho rachando o bico da minha cara.
Eu já tinha consciência que eu era uma burra, uma tapada, uma jumenta, uma anta nordestina e todos os outros adjetivos imagináveis e abaixo deles. Mas não precisava admitir isso pro mundo.
Ainda relutei contra o meu orgulho pensando: Eu evitarei que isso aconteça a outros jumentos como eu se eles forem presos... Mas ainda assim, o meu cérebro mesmo me respondeu: Não querida, não se preocupe - não existem jumentos como você!
O policial ainda esperava alguma frase minha quando eu olhei pra ele e perguntei:
Onde tem um ponto de ônibus próximo?
Ele sorriu e me apontou um a uns quinhentos metros.
Eu fui andando até o ponto, peguei o ônibus e fui embora para minha casa.
Depois de uma briga com a chefe, ser vitima do golpe do conto da carochinha era demais para um dia só, não conseguiria trabalhar mais naquele dia.
Fui embora desolada.
Mas no caminho algo me consolou.
Ainda que sem querer, eu me vinguei deles. O cartão que eu tinha colocado para eles era um cartão antigo e bloqueado, que eu nem sabia por que eu ainda não tinha jogado fora.
Logo se eles foram sacar, deram com os burros n’água.
Não me ajudava em nada, mas pelo menos, eles também se deram mal.
Enterrei essa história da minha vida. Nunca mais preenchi papéis para sorteio nem de um milhão. Nunca contei sobre esse dia a ninguém de tanta vergonha de mim mesmo.
Exceto para minha mãe.
Essa foi a única história que fez minha mãe parar definitivamente de ofender os meus irmãos e mandá-los ser inteligente como eu.